Vitrines Da Vida

“Seus olhos”

Lara tinha uma forte intuição, parecia um radar. Percebia até mesmo o que não deveria, porém esse radar funcionava bem referente ao seu marido.
O casamento ia vencendo o tempo. Brigas eram raras. As noites, poucas nos meses, eram tórridas de amor. Ela nunca fora tímida nessa ocasião, pois sabia que a fantasia era necessária para manter a chama do desejo acesa.

Parecia conhecer seu homem pelo avesso, podia enxergar os seus pensamentos. Sabia quando ele desejava outro alguém, quando se tocava sozinho, quando assistia um filme pornô, enfim percebia tudo, porém não lhe cobrava nada, fingia que nada acontecia…
Tinha pena dele, pois pensava ser o esperto, e muitas vezes até fora, mas com Lara não tinha jeito. Ela o conhecia demais.
Em alguns momentos ficava a contempla-lo. Sua fisionomia irônica, ele percebia, somente não imaginava que sua amada sabia tudo que fazia.
Em quantos momentos de amor, sabia que ele estava pensando em outro alguém… estava estampado em sua face, os olhos fechados, a ereção forçada, a ejaculação demorada deixavam claro esta certeza.
Esse radar tornou-se algo perigoso na vida de Lara, e na vidas de muitas pessoas, tantas vezes se sentia triste. Acontecia naturalmente. A tristeza vinha aos poucos e afundava-a num abismo sem fim.
Seu limite estava próximo.
Sua vigília chegaria em breve ao final, final infeliz… incerto… deserto!
Provavelmente um dia perceberá o perfume da traição, assim como já percebera…
Existem várias formas de trair.
Um gesto.
Um olhar.
Os olhos são traiçoeiros demais. Buscam sempre a beleza, o desejo incontido pela sensualidade… encontram pernas, bundas e os seios fartos das mulheres; encontram os decotes exagerados; encontram a delineação do corpo nos trajes justos e marcantes; encontram bocas e mãos; encontram até as “frentes montanhosas” dos homens. Os olhos procuram por todos os lados… os olhos traem nossa razão. Atualmente as pessoas estão mais bonitas e os olhos adoram apreciar o que é belo, é da natureza do olhar…
Mas voltando a Lara – o simples fato de o marido se “fantasiar” no banheiro, na hora do banho, já é uma traição dolorida, pois lhe prova sua insatisfação. No entanto, ela vai ignorando… vai juntando as falhas… um dia certamente, chegará ao seu limite. E quando o nó não puder mais ser sufocado na garganta, lágrimas contidas, frustração vencida, o casamento findará, assim como as flores da primavera… algumas desabrocham fora da época.
Lara, bem no seu intimo, tem conhecimento que cedo ou tarde tudo passará.
Pois seu amado está com os dias contados.
E que atire a primeira pedra que não utiliza sua “bendita” ou “maldita” intuição para tomar certas decisões.

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