Laura havia passado anos construindo muros ao redor do próprio coração.
Depois de algumas decepções, aprendera a desconfiar das promessas, dos olhares demorados e, principalmente, daquela sensação perigosa de perder o controle quando alguém conseguia tocar lugares dentro dela que julgava esquecidos.
Então apareceu Cauã.
Aos vinte anos, ele carregava uma juventude que Laura tentava não perceber. Havia nele uma mistura de coragem e delicadeza que a desconcertava. Cauã não insistia quando ela recuava, não exigia respostas quando ela ficava em silêncio. Apenas permanecia por perto, com aquele sorriso que parecia dizer que algumas coisas não precisavam ser explicadas.
Laura resistiu.
Resistiu aos encontros que se prolongavam além da hora planejada. Aos olhares que demoravam um segundo a mais. À vontade de ouvir sua voz no fim do dia. Resistiu até mesmo quando percebeu que começava a esperar por suas mensagens.
Mas a resistência foi se desfazendo pouco a pouco.
Numa noite quente, os dois ficaram conversando durante horas. A cidade parecia distante, e o silêncio entre uma frase e outra já dizia mais do que qualquer palavra.
— Por que você tem tanto medo de sentir? — Cauã perguntou.
Laura desviou os olhos.
— Porque sentir demais sempre cobra um preço.
Ele se aproximou, sem pressa.
— E se, desta vez, valer a pena?
Laura não respondeu.
Apenas olhou para ele.
Naquele instante, alguma coisa mudou.
O beijo aconteceu como se ambos já soubessem que, depois dele, seria impossível fingir que nada estava acontecendo. Foi intenso, carregado de tudo aquilo que Laura havia tentado controlar durante tanto tempo. Ela sentiu o coração acelerar, as mãos tremerem e uma antiga sensação despertar dentro dela.
Era desejo, mas era também ternura.
Era medo, mas havia coragem.
Era a estranha e maravilhosa sensação de estar viva novamente.
Cauã a fazia rir de coisas simples. Fazia com que ela se arrumasse sem perceber que estava esperando por ele. Fazia Laura redescobrir músicas, lugares e até sonhos que havia abandonado.
E, principalmente, fazia com que ela se lembrasse de quem era antes de aprender a se proteger de tudo.
A paixão entre os dois tornou-se tórrida, arrebatadora, impossível de esconder. Cada encontro parecia reacender alguma coisa. Laura, que tanto temera entregar-se, descobriu que o amor não precisava chegar como uma promessa de eternidade.
Às vezes, ele simplesmente chegava.
Num olhar.
Num beijo.
Num abraço demorado.
Numa madrugada conversando sobre o futuro.
Certa noite, encostada no peito de Cauã, Laura sorriu.
— Você sabe que me fez voltar a acreditar em coisas que eu tinha esquecido?
Ele acariciou seus cabelos.
— Que coisas?
Ela levantou o rosto e o encarou.
— Em mim. No desejo. Na vontade de viver. E nessa sensação louca de estar amando novamente.
Cauã sorriu.
Laura percebeu então que talvez tivesse passado tempo demais tentando proteger o coração de novas feridas.
Porque, às vezes, para voltar a sentir, era preciso justamente aceitar o risco.
E naquela noite ela não teve medo.
Pela primeira vez em muito tempo, Laura simplesmente se permitiu amar.

