A vida nem sempre é da maneira que a gente quer.
Com o tempo, surgem as ferrugens que aos poucos atassalham tudo.
São as perdas – as tantas perdas. Avarias.
A inocência desaparece, que nem fumaça, aos poucos.
O colorido da visão vai desbotando e se transforma em céu nebuloso – a vida será cinza.
O sorriso espontâneo, o riso das coisas mais bobas, vai diminuindo igual espécie em extinção. As brincadeiras se perdem na poeira da estrada, discretamente a seriedade usurpa e os dias se tornam árduos.
É o sabor da vida – sabotado pelo tempo.
Afinal qual sabor tem sua vida?
No seu quarto escuro, em agonia, as lágrimas desciam rapidamente por sua tez borrada pelas decepções. Seu aconchego – a escuridão e as músicas antigas que ouvia, presentes em todas as fases da sua vida, desde o tempo em que ainda criança acreditava em sonhos.
Quarenta e cinco anos, que, apenas em míseros quinze, viu o mundo colorido e tinha muito tempo pela frente.
Seus sonhos foram destruídos pelas tempestades.
Seus planos levados pelos ventos e ventanias, inesperados.
O sabor da vida de Bruna é amargo. Descontraída, confidente, falando sempre das coisas positivas, vivia rodeada de pessoas, muitos que se diziam amigos, portanto o tempo as revelavam. No seu meio social e familiar era tida como forte e bem-resolvida, não falava ou lamentava com ninguém sobre as coisas que não aconteciam como ela esperava. Em todos os momentos de convivência no seu círculo social, estampava um sorriso – apenas disfarce – dos dilemas que vivia.
Ninguém notou.
Elegante, bonita e inteligente, adjetivos inúteis, que não fizeram diferença na vida, Bruna vivia, sofria, amargava e resolvia sozinha seus desafios. Não reclamava com ninguém.
Foram muitas fases boas, mas passavam depressa feito o queimar de um palito de fósforo, então pedras se jogaram no seu caminho, pedras pesadas e imensas, algumas ela não tinha força para remover, reservada não pedia ajuda.
NA VIDA, EM ALGUM MOMENTO, TODOS PRECISAM DE AJUDA.
O tempo foi passando…
Anos e anos, essa passagem, que quando se para e pensa, é tão rápida, a conta gotas consome os ideais e as forças…
Tantas tentativas…
Após oscilações de fases, Bruna estava consumida, tipo uma poça no sol que vai evaporando invisivelmente.
Caminhou e chegou, apenas no vazio que se encontra, o cansaço emocional a corroeu e furtou suas forças.
Perdeu o encanto…
Perdeu a vontade de respirar.
Nada na vida foi como planejou – poucos êxitos e muitas derrotas.
O fracasso é perverso, um breu, uma dor que apenas quem cair nos seus braços, entenderá. Bruna cedeu ao abraço do fracasso.
Bebia solidão.
Raramente saía, mas nesses encontros – usava o sorriso como disfarce, mas seus olhos – olhar morto.
Ninguém notou.
Os olhos não mentem…
Os olhos não escondem a dor da alma.
APRENDA OLHAR NOS OLHOS.
Amigos, família, colegas que se encontravam ou falavam com ela, nem que fosse por telefone, não perceberam e enxergaram a nuvem negra que a acobertava
A ansiedade, achou a chave do seu emocional, entrou e a fez refém.
Sua sala triste era seu abrigo seguro e única testemunha, das lágrimas, do sofrimento de uma pessoa que precisa somente que alguém pegasse sua mão fria.
Ninguém notou.
O fracasso cega sua vítima.
Bruna sentia-se fracassada.
Sozinha.
A dor emocional é desesperadora e sufocante, porém Bruna a amenizava a cada pino que consumia. De hora e hora, antes da dor voltar, ela tomava sua dose.
Ninguém notou – será a rotina impedindo as pessoas de notar, de olhar ao redor.
Por mais um tempo, Bruna penou no abraço esmagador do fracasso, no beijo sufocante da tristeza, no carinho da solidão, na carícia da ansiedade, buscava o alívio das feridas emocionais causadas por esses gestos, com doses e doses – até se sentir arrebatada – um ímpeto que a fazia até voltar a sonhar.
Ninguém notou.
Em uma madrugada fria de tempestade e trovões, escutando suas canções preferidas, no quarto, a luz acesa, sentia-se até uma gota de ânimo e o frescor da felicidade.
Após muitas doses, ela sentiu um toque – alguém pegou na sua mão.
Agora, reunidos, indignados, amigos, família e meros conhecidos que não notaram, questionam intrigados aquele acontecimento.
Seus olhares miram no meio daquele ambiente fúnebre.
E notam a esquife.


Intenso e forte! Ritmo profundo e obscuro nas entrelinhas. Vontade de ver a personagem e tocá-la. Me parece que na penumbra foi o lugar de conforto pra ela. Amei.