A vida passa tão depressa e ser feliz depende das nossas escolhas, afinal cada um colhe o que planta.
Moradora do subúrbio, embora sua condição financeira precária, era uma mulher muito sofisticada. Convicta que sua alma é de pessoa rica, porém no corpo errado.
Quando fui gerada, eu entrei na fila errada. – pensava
Odiava fazer parte do grupo dos menos favorecidos, mesmo assim nunca teve qualquer sentimento de inveja.
Sofria. Simplesmente sofria. Queria, precisava, necessitava ser rica, nem que fosse por um dia.
Não teve condições de fazer um curso superior e nos dias de hoje, sem formação restam as profissões mais pesadas, porém extremamente necessárias.
O jeito foi ela trabalhar, no que surgisse, sem direito de escolher cargo, para ter o mínimo de conforto possível.
E assim seguia seu trajeto, seu destino, seu carma, caminhada para a evolução. Acordava às cinco da manhã e se aprontava para a labuta em uma grande padaria da região.
Era pau para toda obra, atendia no balcão, lavava as louças, limpava o chão e por ter adquirido a confiança do patrão, nos finais de semana, ficava no caixa do estabelecimento.
Tratava os clientes com alegria e carinho, sabia o gosto de cada um, fazia o café, o pão na chapa ou qualquer outro lanche, exatamente como queriam.
A tristeza invadia seu ser quando pensando na vida caía na realidade, da sua pobreza, das suas restrições e de tantos planos que almejava realizar e não tinha recursos. O salário recebido mau pagava seus boletos.
Que lamúria.
Certa madrugada acordou, pegou o celular e o fone, selecionou uma playlist, escutando suas músicas preferidas, teve uma ideia. Acordou no dia seguinte animada, afinal se seu plano desse certo, realizaria seus maiores desejos.
E o maior desejo – uma paixão. Aquele tipo de paixão que incomoda as emoções. Alimentava esse sentimento por um colega de trabalho, que a desprezava, afinal não era o tipo de mulher que ele gostava.
Nas conversas, durante o expediente, falava com ele com muita firmeza:
Vamos viver juntos e felizes. Nossa vida vai mudar. Aguarde.
Ele a ignorava e continuava seu trabalho. Mesmo sem ter qualquer atenção ou ser correspondida, ela deixou a paixão dominar e roubar seu sossego.
Certo dia, ela revelou, em plena felicidade, que havia ganhado na loteria e que em trinta dias receberia o prêmio: SOU A NOVA MILIONÁRIA DO PEDAÇO.
Essa notícia se espalhou feito fuligem em dia de vento forte.
Foi um alvoroço, teve até churrasco na rua para comemorar. Todos acreditaram nela, pudera ela também.
Logo os ambiciosos surgiram, queriam vender algo para aquela mulher, a fim de ter um bom lucro. Queriam um pouco daquela grande quantia. Uma fatia daquele delicioso bolo.
E ela começou a gastar o que não tinha
A pseudo rica lacrava e ostentava gastando como se fosse verdadeiramente a nova milionária do pedaço. Comprou fiado tudo que almejou: adquiriu uma enorme casa decorada luxuosamente, que estava à venda na região, a mais chique do bairro, a proprietária fez questão de vender para ela. No mesmo dia se mudou, deixando tudo para trás, levou somente seus documentos.
Adquiriu carro de luxo, moto, joias e roupas das renomadas grifes. Até motorista ela contratou. Queria viver uma cena que viu em tantos filmes e novelas – chegar no bairro com muitas sacolas de compras.
A fantasiadora estava mesmo disposta a viver seu sonho, sendo assim pegou uma grande quantia com um perigoso agiota da região.
Tudo estava perfeito, não passou na cabeça de ninguém que seria mentira daquela balconista, mulher simples, honesta e batalhadora, que apesar de ganhar pouco, fazia questão de manter suas contas em dia e ter o seu nome limpo. Dizia sempre que o nome limpo era o único bem que o pobre tinha.
Todos estavam felizes por ela.
Ela esquematizou com cuidado cada etapa dessa mentira, portanto elaborou também um plano para consertar a situação. Passou a jogar, em uma loteria no centro da cidade, em todos os dias que tinha apostas, ou seja, três vezes por semana. Tentava a sorte fazendo muitos bilhetes, e gastava um bom dinheiro tentando ter, verdadeiramente, o delírio que inventou. Acreditava que ganharia. Tenho trinta dias para ganhar, me ajuda Deus. – e rezava copiosamente.
Ela se descompensou, de repente, vivia como se não houvesse amanhã, sem pensar nas consequências. Realizou todas suas vontades materiais.
Restava realizar o seu maior devaneio – conquistar o homem que entrou no seu coração, o homem que a fez sonhar. Tirou seu juízo.
Preparou um sofisticado jantar romântico, como nos contos de fada. Aprontou uma grande surpresa para o amado, deu a ele muitos presentes, um relógio caro e ainda realizou o maior sonho dele, uma moto.
Por gratidão, resolveu realizar o desejo dela, assim que terminaram o jantar, foram para um hotel luxuoso.
E o maior sonho dela se concretizava.
Foi tocada de todas as formas…
Sentiu-se desejada e realizada…
E durante aquela noite de céu estrelado, ela fez e experimentou nas intimidades coisas que jamais viveu.
Na manhã seguinte, sem pudor, declarou todo seu amor. Fez promessas e propostas, contudo ele deixou claro que foi apenas um momento. Nada além. Nada mais. Seguiram seus caminhos em direções opostas.
E ela seguiu vivendo no seu castelo de areia.
O tempo, ah, o tempo foi passando… e a inocente se viu em uma teia de aranha.
O prazo esgotou, os argumentos findaram, o resultado foi uma sucessão de cobranças e de ameaças, alguns vendedores pegavam de volta o que ela comprou. Foi o maior vexame, a maior humilhação na sua vida. Um caos, sufoco, vergonha e medo. Ela não sabia o que fazer. Passava as noites e dias em pleno desespero, no entanto mantinha a pose e afirmava que seu advogado estava cuidando da situação.
Em poucos dias tudo se revolverá – dizia, acreditando que iria ganhar em uma das tantas apostas que fazia.
Tem uma hora na vida que a lucidez bate na porta, ela caiu na real do erro cometido, a realidade veio como bomba atômica.
Aquela inocente mentira se tornou uma avalanche.
O agiota deu a ela o último prazo para pagar o montante surreal que a emprestou. Ela entrou em desespero e concluiu que jogou sua vida fora, em vão, apenas por não aceitar sua condição, por querer ter mais do que podia.
Sem seu amor…
Sem dinheiro…
Humilhada…
Ameaçada…
Atolada em dívidas, sem solução, ela agiu.
Tomou um demorado banho, se arrumou como se fosse para uma festa de gala. Colocou o melhor e mais caro vestido, usou um perfume importado e passou o seu batom vermelho.
Deixou o quarto a meia luz. Sua música preferida tocava ao fundo.
Na tarde chuvosa, do dia seguinte, ela foi encontrada sem sonhos.
Nada restou, além do seu último recado, no grande espelho, escrito com batom vermelho.
EU SÓ QUERIA SER REALIZADA, FELIZ E AMADA.
CRIADO POR SILVIO CERCEAU
ESCRITO COM KAYETE FERNANDES


