Vitrines Da Vida

Olhos mortos

Aquela mulher irritou-me.
Sentou-se no banco da frente e começou a arrumar as compras. Somente coisas inúteis. Bolo de vários sabores. Iogurte. Frutas. Refrigerante. Balas.
E também material de higiene pessoal – creme dental. Sabonete. Escova dental. Papel Higiênico.
Separava os itens cuidadosamente. Enrolava-os na página de uma revista promocional do supermercado que fizera as benditas compras.
Sua expressão distante. Os olhos mortos. A pele necessitando de hidratante.
Como se não bastasse começou seu lanche. Abriu um Gatorate. Bebeu alguns goles com orgulho.
A seguir desenrolou duas fatias de pizza e comeu com vontade. Impaciente sequer preocupou se estava sendo observada. Sujou os dedos de azeite barato e lambeu-os sem receio.
Quanta antipatia.
E o percurso continuou…
Calmamente prosseguiu arrumando suas compras.
Com uma calma infinita.
Separava detalhadamente cada item.
O que essa louca está fazendo – pensei com ironia.
Ainda bem que o ônibus estava vazio.
Nisso entra um pedinte e faz seu dramático discurso.
Não roda a roleta.
E usa uma criança – diz ser seu filho – de mais ou menos sete anos para recolher a ajuda lamentada.
A mulher parou o que estava fazendo e aconselhou-o: procure a assistência social – certamente lhe dariam a salvação para seu filho recém nascido – um medicamento muito caro.
Sinceramente não acreditei na lorota dele. Afinal toda hora entra alguém no veículo contando uma história de fracasso.
No embalo da conversa a mulher revelou que o marido estava detido no presídio da cidade.
Há quatro anos ela passava pela situação de ter que visitá-lo.
Sua voz saia sem forças.
Seus olhos ainda mais mortos.
Contou-me que tem dois filhos, um menino de quatro anos e uma menina de sete.
Trabalha duro para criar os filhos.
Não tem vergonha de seu amado estar preso – afinal quem não erra nessa vida.
Ressaltou que já avisou a ele que se errar novamente o largará.
Estava indignada com os últimos acontecimentos com o amado. Ficara na solitária e não resistindo sofreu um AVC. Na ocasião ele numa ala especial do presídio.
Não me foi revelado o motivo da prisão do homem que amava. Carrego na imaginação inúmeros motivos.
Para desabafar, ainda, falou um pouco de si. Em tratamento por causa da profunda depressão.
“… mas Deus me dará força. Sou da igreja. Sei que tudo vai passar…”
Agora fiquei com pena daquela mulher. Julguei-a sem saber seu dilema. Concluir – em tudo é o que parece.
Aproximando a hora de descer tomou o calmante com mais um longo gole do Gatorate.
Despediu-se sem entusiasmo.
Carregaria sua cruz.

Baseado em uma história totalmente real.

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