Vitrines Da Vida

Quando o amor acaba

Dia movimentado nas ruas daquela metrópole. Uma loucura. Também pudera, final de ano. A chuva caia há dias agravando a situação.
Clara saiu cedo, sua raiva era evidente.
Odeio andar no meio de pobres – dizia com deboche. – Pobre é um inferno mesmo, não pode ter um dinheiro extra que resolve gastar. Por isso será eternamente pobres. No fim de ano gasta o décimo terceiro… – sorriu maliciosa presenciando as pessoas agitadas naquele vai e vem.
Ao deparar com um rapaz, que por ironia do destino saia de um shopping popular, gelou a alma. Sentiu algo extremo. Por distração, esbarrou nele, derrubando o seu celular. Abaixaram-se para pegá-lo. Momento mágico para ambos.
_ Me desculpe – a voz de Clara foi quase um gemido de emoção.
_ Não tem problema, as ruas estão um caos, as pessoas acabam atropelando as outras – tentou ser gentil. – Qual seu nome?
_ Clara.
_ Prazer, Anderson – estendeu-lhe a mão. – Vamos tomar um café? Tem um barzinho aqui perto…
_ Tudo bem – aceitou com receio.
Entraram num bar simples. Clara observava temerosa, afinal, em toda a vida frequentara cafeterias sofisticadas.
Não precisaram de nenhum argumento para trocar os números dos telefones. Ela voltou para casa sentindo forte emoção. Anderson permaneceu em seu pensamento. Quando o telefone tocou, atendeu instantaneamente.
_ Pois não…
_ Clara esta? – aquela voz ela jamais esqueceria…
_ Sou eu – o tom cintilante de encanto.
_ Como vai, Clara? Desculpe te ligar, mas…
_ Foi ótimo ter ligado – interrompeu rápido.
_ Estava pensando em convidá-la para sair. Tem algum compromisso?
_ Que dia?
_ Hoje – fez uma pausa, pensou alguns instantes. – Agora – antecipou.
_ Pode ser – explodiu de felicidade.
Clara entrou no local combinado, destacando sua marcante beleza. Fitou Anderson profundamente.
_ Boa noite – levantou-se, cumprimentando-a, dando-lhe um beijo que se tornou intenso, prolongado… Clara jamais sentira algo tão forte, uma coragem de se entregar a alguém que sequer sabia sua origem.
Naquela preciosa ocasião esqueceu-se do mundo. Nada importava.
_ Você é tudo que eu sonhava –declarava.
Sua beleza se ocultava, o tornando atraente. Corpo esbelto, cabelos bem cortados, um rosto perfeito, um tipo que atrai.
Na semana seguinte, Clara estava apaixonada. Contudo, ainda vivia um relacionamento com Madson, relação que se estendia há quase um ano, os consumindo. Tentavam de todas as maneiras resgatar aquele sentimento marcado por mentiras, traições, dúvidas. Quando Madson queria relacionar-se intensamente, ela o repugnava. Depois, a situação se invertia. Tornou-se um jogo… um perigoso jogo de desconfiança. Cão e gato! No entanto ambos temiam a solidão. O resultado era a tristeza estampada nas faces. Mesmo assim, não tinham coragem de acabar com aquele martírio.
Clara consumia-se em duvidas quanto ao amor que sentia por Anderson. Este possuía seus pensamentos. Falavam ao telefone todos os dias, procuravam motivos para manterem contato.
_ Eu te amo!
_ Se me ama, então larga aquele otário, se entrega a mim. Te prometo, vou fazê-la muito feliz. Nunca namorei sério, nunca me apaixonei – revelou. – Você despertou em mim o amor…
_ Anderson, estou tão confusa. Mas estou com pena de terminar com o Madson, ele é muito especial para mim. Mas o amor acabou.
Quando encontrava-se com Madson, o vazio consumia-os… segundos depois do prazer, ficavam deitados lado-a-lado no escuro, e os pensamentos de ambos não existiam naquele lugar. O dela, com certeza, voltados totalmente para Anderson. Podia sentir seu cheiro, sua presença. Levantava, ia até a janela, observava as ruas ao redor, o céu apagado pelas nuvens. Lágrimas surgiam. Pegava o celular e enviava mensagens, declarações ao seu amor.
Começou a evitar Anderson, era a única alternativa para tentar resgatar o relacionamento que falia a cada dia.         Meu Deus, nunca estive tão confusa. Se eu amo Anderson, então não sinto nada pelo Madson, e se senti, acabou. Estou apaixonada por outro – concluiu.
O tempo foi passando, e a tristeza tornou-se a punição pela falta de coragem de tomarem uma atitude sensata. O vazio aumentava. O vazio dela. O vazio dele.  Lástima e  incerteza… Resultados de quando o amor acaba.
_ Você está tão triste – provocou ela. – O que está acontecendo? – mesmo com o temor do resultado daquela conversa há dias adiada, ela prosseguiu.
Enfim, a decisão foi tomada. Por ele, aliviando a consciência de Clara, que, no minuto a seguir, entregou-se ao novo amor da sua vida.

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