Vitrines Da Vida

Eterno segredo

Quando percebeu que havia crescido foi caindo numa tristeza sem medida. Ah! Se pudesse voltar a ser criança! Época que tinha o aninho do colo materno… podia chorar sem vergonha de nada. A inocência foi se perdendo nos trilhos do destino.
Quantas amarguras?
Amores perdidos…
Amigos, onde estaria cada um deles?
Na infância os sonhos e fantasias dominavam seu coração.
Quantas brincadeiras?
Mas, o tempo passou…
Olhar cansado…
Passos lentos…
Rugas marcadas…
Voz macia… cala a alma.
“ Tenho vontade de ser novamente menina” – é um brado surgido do seu interior.
Viu tantas pessoas partindo, na viagem sem volta – a morte!
Quantas vezes se perdeu com problemas e tristezas… coisas de adultos. Alma aflita.
Lágrimas vertidas.
Cada fase da vida é uma etapa que deve ser bem desfrutada, mas nunca temos a consciência disso e deixamos de viver tantas coisas.
O tempo vai correndo…
Dez anos, vinte anos, trinta anos, quarenta anos… um dia a menos para ser feliz é a certeza única.
Se fossemos conscientes da beleza das coisas, tudo poderia ser diferente!
Ângela sentou-se na antiga cadeira de balanço e relembrou todo seu viver.
Sabe-se que tem muitos anos de vida, no entanto evita revelar números. Vai vivendo um dia após o outro, o passado já passou, o futuro é incerto, mas o presente é pra ser bem vivido.
Pelas manhãs regava o roseiral que sabia cultivar como ninguém, a seguir a governanta já espera na ampla copa para o café da manhã – torradas, café bem forte, pão de queijo, geleias, suco de maçã, tinha sempre que ser de maça, mamão… ali permanecia por mais de meia hora, folheava o jornal do dia.
A essa altura já estava bem maquiada, pois sempre fora vaidosa.
O marido falecera há dois anos.
Diante do caixão, Ângela apertava aquelas mãos, frias, cruzadas sobre o peito.
“ Meu José, você prometeu que não ia antes de mim… porque fez isso comigo, meu amor…?
E chorou…
Foram mais de cinquenta anos.
Filhos, netos, noras, genros… uma bela família!
Agora restara a solidão. O barulho da água que uma das empregadas lavava algo. O cheiro antiquário no ar. Nada fora modificado.
Certa manhã sentiu-se mais viva do que nunca.
Caminhou até o espelho. Voltara a ser criança…
Desceu assustada a escada. Sonho – pensara.
A sala cheia… todos estavam ali… tantas lágrimas.
Aproximou-se um pouco mais… notara um esquife no meio dos lamentos vindos de todos os cantos.
Entendera naquele instante – chegara a hora de partir…
Viajaria definitivamente sem saber para onde!
Seria novamente uma criança e começaria tudo novo…
Morrer não é o fim?
Ninguém nunca voltou para contar!

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