Vitrines Da Vida

Por que um conto no natal? – com Marcello de Matos

Famosos contistas nos brindaram com contos de natal que até hoje permanecem em nossa memória cultural. Gerações se perpetuam contando conforme seu entendimento na contação das histórias, revirando o imaginário de nossas crianças e, por que não, o nosso?
Gostaria de despir-me de meus sentimentos, de minhas emoções, que me levam às lágrimas ao ver tantas crianças em caminhos muitas vezes sem volta. Caminhos estes destinados a sofrimento sem sentido e uma fase adulta despreparada.
Este conto é para as crianças dentro de cada adulto. Para aquelas que se foram antes da hora e não quiseram ou não puderam abrir os presentes. Para aqueles que não viram seu papai Noel entrar pela chaminé inexistente ou pela janela entreaberta. Para aquelas viram seus pais entrarem pé ante pé no quarto e depositarem na cama um presente que não era o que esperava. E no dia seguinte um leve gosto amargo, uma sensação inexplicável de vazio, que nem mesmo o carinho dos pais preenchia.
Conclamo a esta criança que ressurja. Que saia pela boca deste adulto amargurado, que sentou agora em frente à TV para assistir ao futebol e que, sem querer, afastou de si seus filhos ansiosos por atenção. Volte, tranque este adulto dentro do guarda roupa, coloque uma cueca na cabeça se não tiver um gorro. Abrace seus filhos e peça desculpas pela ausência. Brinque de esconde-esconde, avance pela madrugada jogando vídeo game ou se não o tem, construa aviões ou barcos de papel. Escreva cartas para o homem de vermelho, quem sabe assim você não descubra o que tem no coração de seus filhos?
Abrace sua esposa e diga o quanto ela é importante para você e que nada seria sem ela. Não lamente sua vida financeira. Não reclame de seu trabalho. Hoje você não é você. Você é aquela criança que não tem palavras para expressar o que sente. Apenas lágrimas. Lave o mundo com suas lágrimas e peça que cada criança sinta o amor dos pais. Se puder, vá a um orfanato e busque alentar um rosto que chora. Preencha um vazio que nunca foi ocupado. E, no fim, verá que o vazio que foi preenchido foi aquele que estava em seu coração.
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Saia para rua e grite sem moderação, grite seus sonhos. Grite seus desejos e suas vontades, sentimentos abstratos tão próximos da mesma sensação, mas no fim o gosto peculiar de cada é sentido profundamente.
Cumprimente o estranho, o mendigo que se perdeu em alguma esquina da vida. Distribua harmonia, pois as crianças a distribui sem pretensão.
Liberte aquela criança que vive em cárcere dentro de si, aquela criança que tinha como preocupação no final do ano se seria aprovada na escola, aquela criança que sorria espontaneamente. Aquela criança que tinha os sonhos mais singelos.
Muitas vezes nessa complicada vida nos perdemos em tantos dilemas, tantas escolhas, tantas decisões e consequentemente nos tornamos sérios demais, perdemos nossas emoções.
Perdemos nosso sorriso, nosso olhar puro.
Peça a Papai Noel neste natal, de volta, o seu olhar de criança.
E tenha sempre os sonhos mais singelos.
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