Vitrines Da Vida

Atestado de óbito

O mundo das drogas é deplorável… solitário. Uma fuga interminável.
Jean estava afundado no vício.   
Jovem estabilizado, de uma família alinhada.
Decidiu fazer parar o tempo. Fugir de si mesmo, tentar superar os enigmas da vida.
Pegava a pedra de cocaína, transformava-a em pó com perfeição, e cheirava até se encontrar em êxtase. Repensava toda a sua vida, seu trajeto. Chorava, se arrependia de tudo que fizera de errado até o momento. Decidia que ia começar de novo… mas no dia seguinte estava de volta a sua realidade:
Trabalho, relacionamento, família, amigos, bares… drogas.
Às vezes se encontrava com a galera, na casa de um deles que morava sozinho.
Conversavam assuntos banais, dançavam, usavam diversos tipos drogas.
“Quando a onda bate é muito inexplicável, andando pelas ruas observo as pessoas distantes, como se fosse um sonho, um sonho bom… um sonho ruim… um sonho que você quer fugir e quer ficar… os faróis dos carros são mais iluminados e passam como as ondas do mar… sinto vontade de correr, de gritar, de chorar, de me entregar ao fracasso do vicio. Na verdade comecei a usar droga porque sempre achei chique, principalmente a cocaína, porque é uma droga discreta… não deixa rastros… Entretanto tenho momentos de lucidez. Sei que estou me matando e ferindo as pessoas que acreditam em mim, na minha capacidade de aceitar os problemas do cotidiano. Certo dia decidir usar o famoso crack, foi magnífico diante do que a gente espera sentir… a onda bate com força em segundos, é uma viagem rápida para um mundo só meu… na realidade nem sei explicar todo o efeito. No primeiro momento fiquei meio com medo… a pedra era esquisita, um forte odor. Peguei uma lata vazia dessas de refrigerante, amassei-a ao meio, e fiz diversos furinhos, coloquei num pouco de cinza de cigarro para a pedra queimar mais fácil… quebrei a pedra em pedacinhos misturei com a cinza , queimei-a puxando a fumaça pela abertura lata… foi muito bom… foi muito triste… dentro de minutos não era mais eu… queria mais… queria mais e mais… assim virei a noite. No dia seguinte o drama, estava de volta a minha vida tão sem graça… eu sempre senti este vazio… ah este vazio tem me derrotado durante tantos anos… só nas drogas encontrei apoio, coragem para fazer o que quiser… deixar a tristeza fluir… me consumir.   Assinei o meu atestado de óbito quando conheci um traficante que deixava muita droga comigo, claro que eu não resistia. O resultado foi este quarto de CTI, entubado… Repensando sobre toda a minha vida… Sabe, fui um jovem muito bonito, corpo atlético, tipo que chamava a atenção. Cheguei à conclusão que a cocaína me dava a sensação de poder, força e euforia; mas, de repente, irrequieto, trêmulo e impaciente… É uma sensação de prazer.   Quando sair daqui, vou parar e refazer minha vida… Quem sabe até arrumar uma namorada, coisa que até hoje nem pensei… Afinal, a cocaína é a minha única companhia. Eu me sinto triste quando retomo a realidade… parece que não sou eu. Quero fugir!…
Jean lamentava a realidade que vivia; desviava-se o tempo todo da solidão, da tristeza. Naquele quarto de hospital só lhe restava o vazio. De repente sentiu algo superior a toda sensação experimentada até o momento.
_ Teve uma parada respiratória – soou a voz da médica.
Foi fatal…

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