Vitrines Da Vida

Tão só

Quis tantas vezes saber a verdade.
A verdade dói.
A verdade pode ser intolerável.
A verdade pode ser difícil de aceitar.
Ela preferiu de tal modo.
Há semanas notava-o distante, até na hora do amor percebia seu pensamento em outro lugar, longe da sua cama. Distante do seu corpo.
Disfarçar o desejo não é tarefa fácil.
Ele não conseguiu dissimular que o desejo no seu casamento havia sido dilacerado pelo tempo.
Amava a esposa, sem hesitação alguma, mas não sentia mais vontade de tocá-la.
O resultado foi, no começo, se fantasiar sozinho.
Com o tempo havia um rombo em sua vida.
Ousadamente, na primeira oportunidade se jogou em outros braços, foi tudo muito depressa, dessas transas corridas, cheia de receios.
Porém, excessivamente realizador.
Sentiu-se vivo outra vez.
Ah, como precisava de um orgasmo assim.
Ao entrar em casa deparou-se com os olhos da acusação.
Sentiu-se num julgamento, do qual com certeza seria condenado.
Não pôde fugir.
Contou tudo.
Abriu o coração.
E abrir o coração pode causar tantas feridas. Dele, dela. Sua.
Narrou dramaticamente seu sentimento de amor e seu desejo cessado.
Ela ruiu.
Já previa a traição. Tinha plena certeza da traição. Queria tanto escutar da boca do seu nobre amor a confissão.
Agora, pela primeira vez depois de tantos anos, estava sozinha.
Sem ele.
Com medo da vida.
Sem dono.
Tão só.
O amor, somente o amor, não fora o suficiente para perpetuar seu casamento.
“Ah, se eu soubesse a receita perfeita para juntar amor e desejo, eu não estaria sofrendo assim.” – lamentava.
Buscar a culpa não seria mais a solução, melhor seria acolher o fim.
Vencer a tristeza.

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