Vitrines Da Vida

Para debochar da vida

Eram tantas idas e voltas.
Trazia de volta o seu sorriso, mas o levava consigo em cada partida.
Perdeu seu orgulho e tornou-se refém de um amor cigano.
Porém, agora estava decidida a não ceder aos seus falsos encantos, não iria mais suportar ser somente usada.
Certas decisões são difíceis demais. Para Cristina essa seria a pior em toda sua vida.
Olhava as cicatrizes do seu amor.
“Não abrirei a porta, – pensou – assim não haverá pretexto.”
Na realidade estava se armando contra seu coração, sabia que ao deparar-se com Felipe não resistiria.
Sua doce presença já era o suficiente para se fazê-la se entregar.
Seu cheiro a doparia deixando-a drogada.
A ilusão do amor não a lembraria de pensar na dor, de se proteger, de pensar em si mesma.
Tudo seria muito perturbador.
A campainha quebrou suas articulações.
Sem pensar abriu a porta.
Fitou-o nos olhos.
“Eu não posso mais ser sua somente quando você quer, quando você pode, quando você sente saudade. Eu te amo demais, porém não posso mais dividi-lo nem sei bem com quem.” – disse assim que ele adentrou sua sala bem decorada.
Felipe dizia amá-la, mas sua presença de fato só se fazia quando ele queria.
Quando queria sexo.
Quando queria carinho.
Quando queria um verdadeiro afeto.
Fora isso vivia nas baladas com os amigos de farra.
“Eu não pego ninguém.” – jurava. E estava dizendo a verdade.
Gostava da companhia dos rapazes da mesma idade – vinte e poucos anos – para se divertir, para jogar conversa fora, para debochar da vida.
Com isso nem percebeu o grito de sua amada.
Cristina gritava por sua presença.
Almejava ser como qualquer casal de namorado que vive bem, os encontros pelo menos uma vez por semana e nos finais de semana. Queria andar com ele nos shoppings de mão dada, ir ao cinema, ao teatro. Ser dele sem restrições.
“Homem não cede.” – pensou Felipe dirigindo-se a porta.
Nem foi capaz de rebater, nem teve coragem de questionar, nem quis se justificar.
Partiu sem despedida.
Ela despencou no abismo da saudade.
“Não vou mais chorar recordando nós dois.”
Ficaram nas lembranças um do outro.

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