Há dores que não cabem no corpo.
Elas não ocupam um lugar exato — não estão no peito, nem na garganta, nem na cabeça. Estão na alma, dissolvidas como um veneno lento, escorrendo por dentro sem deixar marcas visíveis do lado de fora. É um peso que ninguém vê, mas que arrasta cada pensamento, cada passo, cada tentativa de respirar.
É estranho como o mundo continua, indiferente, enquanto por dentro tudo desaba devagar. A rotina segue, os relógios não têm piedade, e as vozes ao redor parecem se afastar, como se ecoassem de um lugar onde você já não consegue alcançar.
As pessoas perguntam “está tudo bem?”, e você aprende a responder com um “sim” automático, quase mecânico, porque explicar o que acontece dentro de você seria como tentar descrever um terremoto a quem só conhece chão firme.
Existe um tipo de dor que não grita — ela sussurra, mas é justamente isso que a torna tão devastadora: ela se instala como quem pretende ficar, silenciosa, constante, consumindo aos poucos o que antes brilhava.
Uma dor que escurece as cores, que rouba o sentido das coisas simples, que esvazia o sorriso antes mesmo de ele nascer.
E no silêncio da noite, quando tudo finalmente desacelera, é quando essa dor se revela por completo. Ela se espalha pelos cantos da alma como uma sombra antiga, lembrando que aquilo que foi perdido talvez nunca volte. Há lembranças que doem porque foram demasiado bonitas. Há esperanças que machucam porque já sabem que não encontrarão mais espaço para florescer.
Ainda assim… você continua. Mesmo ferido, mesmo cansado, mesmo quebrado em lugares que ninguém jamais verá. Continua porque, de algum modo misterioso, a alma insiste em sobreviver — mesmo quando tudo nela parece dizer o contrário.
E talvez um dia, sem aviso, um fio de luz rasgue essa escuridão por dentro. Não para apagar a dor, mas para lembrar que ainda há vida, mesmo quando dói existir.
Até lá, você respira. Um pouco a cada vez. Porque às vezes isso é tudo o que se pode fazer quando a alma sangra: continuar respirando, até que o ar deixe de doer.

