Casaram assim que se formaram, ambos em Direito, se tornaram advogados bem-sucedidos e num curto prazo, conquistaram uma clientela seleta.
Verônica era uma mulher muito atraente, alegre, de sorriso cativante. Sabe aquela pessoa que está sempre de bom humor – ela era assim. Elegante, naturalmente, se destacava em todos os locais que frequentava e isso passou a incomodar o seu amado marido.
Ela o amava demais, sempre dizia que o amor aumentava a cada dia. Gostava dele todo, da cabeça aos pés – uma esposa dedicada, porém empoderada, independente e disposta.
Ele escondia seu incomodo e sua ira. Sufocava a vontade de aplicar na esposa uma severa punição.
E prudentemente estava, ininterruptamente, de olho nela, na surdina vasculhava toda sua privacidade.
O tempo passou e foi revelando aquele homem.
Foi tirando dia a dia sua máscara, o mostrando rude, ríspido, frio e violento. Agia como se fosse o dono dela. Quantas situações constrangedoras a fez passar, a expondo, diante das pessoas.
Agora, ao invés de inveja, essas pessoas, tinham extrema pena dela.
O pai, a mãe, a irmã e o irmão a alertavam – que ela não podia, não precisava se submeter a uma relação abusiva, como a que estava vivendo. Sofria uma série de violências emocionais, no entanto Verônica o amava tanto que aceitava, sem questionar, as limitações impostas. Sabia dos abusos que sofria, contudo não agia.
Aquela mulher independente e empoderada foi anulada, se tornou passiva, amedrontada e infeliz. Perdeu a vaidade, a alegria, o bom humor e destaque que tinha, sem pretensão.
Aceitava tudo calada, sem ação, justificava – eu o amo demais.
Amor não retribuído, sem beijos, sem abraços, sem carinhos e carícias. Na cama fria ocorria apenas o ato, ele não se preocupava com o prazer dela, assim que terminava, virava e dormia feito um porco.
Verônica chorava escondido sem ninguém saber. Seu casamento não era nada do que almejou, nada do que sonhou.
E o tempo, ah, o tempo, passou feito trem bala.
Ela foi despertando para sua realidade triste… nem mais uma fachada que servia de escudo para não expor sua desilusão, existia.
Enfrentar a realidade traz:
Dores…
Vergonha…
Constrangimento…
E uma vontade de desaparecer.
Muitas pessoas feridas por suas escolhas não aguentam a realidade, porém ela reagiu e decidiu não aceitar mais a escravidão emocional imposta pelo marido, pelo homem que amou desde a primeira vez que o viu.
Chegou a hora de dar um basta.
Um basta na submissão.
Um basta na vida que não ambicionava.
Naquela noite, reagiu. Tomou um banho e lavou as feridas que inflamavam e doíam diariamente. Escolheu um belo vestido, cuidou do cabelo e preparou um jantar, como há tempos não fazia.
Abriu a garrafa de um seleto vinho.
Preparou o ambiente para um agradável jantar romântico.
Quando entrou na sala, o marido se surpreendeu. Foi grosseiro e dissoluto.
Vou comer porque estou com fome…, mas nada de romantismo… nosso tempo disso, passou.
Seu tom fora tão áspero…
Feriu-a pela última vez.
Roeu, com satisfação, o sentimento e o âmago de quem o amou sem reservas. Quem só queria ser feliz.
Feriu-a, assim, como o veneno colocado em seu prato feriu e roeu seus órgãos e toda ignorância em poucos minutos, dando a ele apenas o tempo de cair na real do ocorrido.
Ainda tentou dizer algo, algo agressivo, mas sua fala foi interrompida e sua boca travada pela morte.
Seus olhos estatelados viram a face de satisfação da esposa que tanto humilhou e anulou, tão-somente por machismo, maldade e vaidade.
Ela estava pronta para as consequências.
Pronta para um recomeço, como durante muito tempo na sua vida, sem ninguém saber.

