As Desquitadas

Olhos nos olhos

Ela jamais ligara para esse lance de horóscopo e previsões e sempre acreditara que o amor verdadeiro seria eterno. Não pressagiava que até as coisas mais banais poderiam ser capazes de findar um legitimo sentimento. Conheceu-o porventura. Após o primitivo beijo derivaram contínuos encontros que os induziram ao altar. O matrimonio fora efetivado com aval tão-somente da família dela, apesar disso todo povo do noivo não deixara de comparecer.
Casaram depressa demais, em menos de um ano, não se deram tempo de se conheceram, de saberem dos defeitos e qualidades um do outro.
Ela não o tolerou por muito tempo e o fim se deu na mesma presteza do desfecho inicial.
Seus defeitos a deixava extremamente estressada. Afundada na raiva. Agia como um rapaz mimado, sem iniciativa para nada. Esqueceu que já não vivia mais na casa dos pais onde tinha tudo nas mãos, chegara a hora de perceber que era adulto, que se tornara um homem, no entanto não passava de um moleque, pelo menos nas suas atitudes.
Ela é de família humilde e por esse motivo sempre correra atrás de seus objetivos, não sabia ficar parada esperando a sorte chegar ou aguardando alguém fazer por ela.
Crescera inundada de atitudes, talvez fora isso que o aliciou, que o deixou deslumbrado, tudo fogo de palha, queima imediatamente, num piscar de olhos. Em pouco tempo as brigas e cobranças abafaram a relação.
E o desejo foi cessando. Tipo fumaça.
Já não tinham harmonia na companhia um do outro. Solidão a dois.
E logo ele viajava em outros braços. Ao saber sentiu-se ferida, como qualquer mulher traída sente, teve vontade matá-lo como qualquer mulher traída tem. Teve um lesivo desejo de vingança, mas não fez nada disso, puramente o colocou para fora de casa.
O pouco que fizeram juntos se desfazia ali – como já era previsto.
A dor fora insuportável. Chorou deploravelmente no tapete atrás da porta, no escuro do seu quarto, proporcionado pela noite, que nem percebera.
Sentiu uma dor profunda como qualquer mulher traída sente, apesar de que homem também se sente assim quando traído, mas não vou falar do sentimento dele, da dor dele, da sensação que sentiu sozinho no silêncio do seu mundo.
Logo se reencontraram na vara cível para desfazer o contrato, o casamento. Não demonstraram nada em seus olhos. Olhos nos olhos. Nem ele. Muito menos ela.
Após a assinatura estavam totalmente livres.
Ela desquitada, ninguém casado no papel volta a ser solteiro, preparando para refazer a sua vida, o maior medo se resumia ao da sociedade falsa-moralista, que julga, que condena, que massacra sem pedir licença.
O tempo foi passando e a solidão apertando. É o luto. O cair da ficha de que fracassara no amor.
Chegara a hora de olhar para frente.

2 COMENTÁRIOS

  1. Por incrível que pareça o traidor também sofre, algumas vezes sofre mais do que a pessoa que foi traída. O traidor percebe que fez besteira depois da besteira feita. Claro que sempre soube que não deveria fazer, mas principalmente quando faz a coisa de modo impulsivo só para e pensa no que fez depois de ter feito.

  2. Mensagem
    Lembrei-me dos corredores das Varas de Família do Fórum. Casais desgastados, infelizes, sentados amargurados esperando o martelo do Juiz. Muito bom esse Conto.

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