Vitrines Da Vida

Sem o que fazer

A aparência denúncia sua modéstia.
Cabelos mal tratados.
Pele precisando de cuidados.
Trabalha nos serviços gerais de um grande condomínio.
Muitos moradores ao cruzá-la, ignoram-na. Fica feliz quando recebe um “bom dia”, “boa tarde”.
Sua voz irritante, entoa um cântico gospel, enquanto passa o pano no chão.
Igualmente, aos outros prestadores de serviços, morre de medo da síndica.
_ Ela é uma mulher ruim! – fala sempre que tem oportunidade de conversar com alguém.
A fama da síndica é a mesma de “Saddam Russein”, dizem, que até já mandou matar muitas pessoas que cruzaram seu caminho, e lhe causaram medo de perder o cargo.
Mas essa faxineira é a mais acuada.
Quando não tem mais o que fazer, pega a enceradeira e passa no piso extenso da portaria.
E fica ali horas e horas. Com a enceradeira para lá e para cá.
O chão já está tão limpo e brilhante que é possível ver nosso reflexo nele.
Naquele condomínio ninguém se opõe a ordem da autoridade maior.
Ela domina tudo.
É a dona do mundo.
Toda história têm dois lados. Uns a condenam. Outros a defendem.
Muitos moradores passam por sérias dificuldades para pagarem a taxa mensal do condomínio, um valor muito alto, dependendo do apartamento, ultrapassa um salário mínimo, porém para não perderem seus imóveis na justiça, pagam logo e passam por privações até na alimentação.
Afinal, nesse local, tudo é errado, começando por sua estrutura. Desenhado por um renomado arquiteto, um dos mais influentes da arquitetura moderna, reconhecido até internacionalmente, o prédio foi projetado sem nenhuma preocupação à acessibilidade. Os elevadores param no meio dos andares e tanto para ir a um andar par ou impar tem que descer ou subir escadas.
Alguns apartamentos têm o mesmo problema. São duplex com uma escada estreita na entrada e outra para acessar o quarto e o banheiro.
Mas voltando aos serviçais do condomínio…
No elevador ocorre o mesmo com os ascensoristas.
No sobe e desce lustram o painel de metal. Não podem, sequer, ficarem as digitais marcadas ali.
Antes podiam desfrutar de uma boa leitura.
As meninas do elevador, como são chamadas, sempre estavam lendo um jornal popular, estudando ou mesmo apreciando um livro, mas “Saddam” também proibiu esses hábitos.
_ Nunca devem ficar atoa – fala rispidamente e completa, – essa é a ordem aqui! Quem não quiser cumpri-la – faz uma pausa, coloca mais fôlego no peito e solta, – rua.
Seja manhã, tarde ou noite lá está à moça com a enceradeira.
E assim ela segue pensando na sua vida…
Sonhando um dia conseguir um emprego melhor…
“A esperança é a última que morre”
“Quem espera sempre alcança”
(…)

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