Vitrines Da Vida

O que dizer?

Depois da última noite, recusou procurá-lo, pois ele não sentia a mesma paixão de o começo.
Lesão complexa de cicatrizar.
Tudo tem um fim, até mesmo um sentimento extremamente vivo.
Saber de suas traições a deixava sem nenhuma vontade de existir. Perdia a cada dia um pouco mais de sua autoestima.
Toda vaidade não fazia sentido.
Amargura pressentida.
Por um orgulho a mais não falava disso para ninguém, seu segredo absoluto.
“Abra os olhos e veja quem sou. Veja como te amo.” – pedia em vão.
Precisava ter ânimo para elevar suas estruturas.
“Não serei eu quem irá embora.” – decidia, mas em pouco tempo recuava.
Deixaria de amá-lo por bem ou por mal.
Sempre há uma forma de findar o sofrimento.
Deitar-se em outras camas.
Beijar frias bocas.
Iludir-se amando alguém qualquer…
Porém nada resolve a situação.
Deu mais corda ao amado e pegou-o no leito da traição, agora não era tão-somente desconfiança, ou palavras dos que viram o ato, ela assistiu, com seus olhos negros, banhados de lágrimas.
Dizem que vê uma traição é fatal, diferente de ouvir simplesmente.
Foi embora com a boca seca, sem rumo.
Com uma dor tão acentuada no peito, no coração e na alma.
A dor da perda.
Impossível de descrevê-la.
Levava a certeza que essa dor mataria seu sentimento.
Assassinato sem condenação.
Sem corpo.
Ficou na sua sala triste, escutando uma canção da década passada, com um copo de uísque sem gelo, na mão.
A qualquer momento ele entraria pela porta, pediria desculpas, arrumaria sua mala e partiria para os braços de sua nova emoção.
Dureza suportar tudo isso.
E lá ficou até a madrugada fria.
Sob efeito da bebida, sabe lá quantas doses, viu o trinco da porta girar.
Ele adentrou com face da morte, tão abatido quanto ela.
Não disse nada…
Ela também não… afinal o que dizer?
Após um longo banho, aproximou-se e envolveu-a nos braços traiçoeiros.
“Nada tenho a dizer, errei, mas eu amo você.”
Os laços de dor se desfizeram até o amanhecer seguinte.
O tempo resolveu o resto da situação.
Foi melhor assim.

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