Vitrines Da Vida

Não tem jeito

A noite parecia eterna e entre sonho e realidade podia sentir sua nobre presença. Seu cheiro. Suas mãos. Guardou-o tanto tempo no coração. Mesmo distante cuidava dele… a sensação de um reencontro deixava-a em total ansiedade. O despertar daquele amor adormecido e vencido pelo tempo, mas agora, outra vez, ele batia na porta de seu coração.
Ah quanto tempo longe de você. Sonhando com tantas coisas, deixando tantos planos derramados pelo chão.
Sua cabeça era um turbilhão de indagações…
Por quê ainda te espero?
Por quê iludo-me que me amas?
Por quê sempre que me chamas, eu vou?
Por quê?…
Ângela vivia esse tormento há mais de dez anos. Desde que viu-o pela primeira vez, trazia no peito a dor daquele amor platônico, pois nunca o teve, além de na sua imaginação.
Agora estava prestes a se ver novamente frente a ele. Tentava se voltar para outras coisa… impossível.
E ali estavam eles.
Falaram de suas vidas tão desiguais. Falaram de tantos assuntos, no entanto nada referente a sentimento.
Ele me ama – dizia a si mesma em pensamento. Talvez tivesse razão, afinal existem vários amores. Qual seria o dele por ela?
Ele estava feliz. Dizia-se completo e realizado, em nenhum momento citou o seu casamento – e ela fez o mesmo.
Eu quero apenas fazer parte de seu pensamento… – lamentava ela.
_ Fica mais um pouco comigo – pediu ele.
Ângela cedeu…
Assim como cedera sempre. Pudera, amava-o demais. Dizem que somente se esquece um amor, quando um novo amor encontrar. Ângela não podia esquecê-lo, não conseguia apagá-lo de sua vida.
Não podia dizer não, pois naquele instante se sentia viva. Feliz… o mundo parou.
_ Fumar é queimar dinheiro – brincou referindo-se ao fato de ele fumar.
Ele somente sorriu. Ah! Aquele sorriso era a sua vida. Quanta emoção contida no peito. A vontade de abraçá-lo e falar de seu eterno amor quase não podia ser superada pela realidade… tão triste realidade.
_ Um maço de cigarro dura, pra mim, dois dias – informou ele.
_ Mas, hoje fumou muito. Esta nervoso?
_ Não. É que o cigarro é de palha e apaga toda hora, então você tem a impressão que fumo toda hora.
_ Cigarro de palha não deixa cheiro?
_ Não.
Estendeu-lhe a mão para que sentisse o cheiro. Tudo que Ângela queria, mesmo aquele gesto sem intenções, aproximou seu nariz, com os olhos fixos naquela mão de pele alva, sentiu o cheiro, o cheiro de seu único amor, fitou as unhas e cada detalhe.
Quanta emoção!
A despedida aconteceu algum tempo depois. Seguiram seus caminhos…
Eu sei que pensas em mim.
Não existe outro alguém capaz de me fazer feliz…
Ângela estava convicta disso, sabia que jamais poderia esquecê-lo… jamais poderia tê-lo…
Mas seguia esperando-o nos dias e nas noites sem sentido.
Não tem jeito, a espera é sua realidade.

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