Vitrines Da Vida

Infeliz

Usava a idade para esconder suas ações delinquentes.
Tinha mais de sessenta anos e sempre fora esperta, pelo menos pensava assim.
Recebeu como herança três bons apartamentos no centro da capital. Todos eram amplos. Ela vivia sozinha, nunca tivera a sorte de se casar. Pudera, era uma mulher grossa em todos os sentidos, incluindo seu pesado corpo. Os parceiros que teve somente utilizaram seu corpo e nada além disso.
Cuidou da mãe, porém logo deu um jeito de mandar a genitora para o inferno.
Assim que tomou posse de tudo, viveu ainda alguns meses recebendo a pensão da mãe paga pelo SUS. Quando o beneficio foi suspenso, ela alugou os quartos dos apartamentos. Preferiu como inquilinos travestis e garotos de programa, cobrava-lhes uma alta diária. E assim desfrutava do luxo… boa alimentação, boas roupas e perfumes, bons gigolôs.
Seus escravos tinham direito a um quarto mal decorado, uma comida desnutrida e a um número de telefone para anunciar o serviço no jornal.
Ao todo, ela tinha nove quartos.
Explorava os vendedores de sexo.
Eles passaram a ser sua fonte de renda, e que renda!
Sua exploração perdeu os limites, não interessava quem fosse. Adultos ou adolescentes para todos tinha uma oferta.
Agora, atrás das grades, refletia sobre sua vida.
Anos e anos jogados fora…
Nunca fez nada a ninguém sem pretensão, estava sempre esperando algo em troca.
Sua amargura aumentava incessantemente.
Tornou-se infeliz, e a maneira de se aliviar era espalhando a infelicidade na vida alheia.
Quantos jovens destruídos?
Quantas pessoas ela podia ter melhorado, porém o dinheiro importava em excesso, vinha em primeiro lugar na sua vazia vida inútil.
Ao anoitecer, depois da revista, ela começou a rasgar o lençol. Sentia como se cada tira fosse uma vida perdida por sua culpa.
No dia seguinte, seu corpo foi encontrado sem vida.
Estava pendurada e enforcada nas tiras das vidas que estragou.

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