Vitrines Da Vida

Exagerada

O povo brasileiro é muito crendeiro.
Uma pessoa supersticiosa se apega a algo que lhe faça sentir mais afiançado perante um fato. Geralmente esses rituais passam de geração em geração, e é claro com o tempo alguns são até mudados. Mariah é uma linda jovem de trinta e poucos anos. Sempre fora muito precavida em todas as fases de sua vida. Os olhos cor de mel. O corpo esboçado, a cintura assinalada. Os cabelos difusos. As unhas bem feitas, sempre pintadas num tom claro. Enfim, todos os jovens a cobiçavam.
E foi no dia de seu matrimônio que sem perceber começou a exagerar em suas crendices.
Tudo foi aprontado com cuidado. O vestido branco… as flores de laranjeiras… o véu… ah! ela ainda era imaculada.
“Não posso me esquecer de entrar na igreja com o pé direito, assim evito azar” – pensou ela.
E assim foi feito.
Antes de se mudar para casa nova, Mariah tinha um gatinho e lá foi mais um ritual, passou manteiga nas patinhas do bichano para evitar que ele voltasse para a casa antiga.
Na sua casa conservava sempre um copo de vidro com sal grosso no canto da sala para trazer sorte.
Nunca passava debaixo de uma escada, ufa! Era mal na certa. Cruzar com um gato preto a deixava em pleno desatino.
Quando via uma borboleta, sabia que o seu dia seria de pura sorte.
Jamais deixava a bolsa apoiada no chão, tinha medo de perder dinheiro. Não varria a casa a noite, pois expulsaria a sua tranqüilidade.
Para mandar logo a visita chata embora, a vassoura era colocada de cabeça para baixo atrás da porta – e dá certo mesmo – afirmava convicta.
Quando a sua mão esquerda coçava, se fartava de felicidade, lá vinha um bom dinheiro… ah, mas se a mão a coçar fosse a direita a tristeza invadia sua vida, pois perderia algo. Se sentia coceira na sola do pé sabia que ia fazer uma bela viagem.
Mariah era mais atenta do que se imagina.
Sempre observava o céu na esperança de vê uma estrela cadente, pois certamente um pedido seria realizado. Ela pediu um filho e engravidou.
Na curiosidade de saber o sexo do bebê, já que na época ainda não se tinha o ultra-som. Mariah pediu o marido que colocasse duas almofadas, uma com a colher e a outra com o garfo. Ela sentou-se na do garfo e de fato nasceu um menino.
Quando a orelha esquentava, é porque alguém falava mal dela. Imaginava os nomes dos suspeitos até a orelha parar de esquentar e ainda como contra-ataque, mordia o dedo mínimo da mão esquerda, assim o mal falador morderia a própria língua.
E assim ela seguia, ao perder as coisas dava três pulinhos para São Longuinho.
Batia na madeira…
Batia na boca…
Fazia o sinal da cruz.
Mantinha na carteira sementes de romã.
O guarda-chuva dentro de casa ficava sempre fechadinho.
Aranhas, grilos e lagartixas era um sinal de boa sorte para o lar.
Na hora de acordar, abria os dois olhos ao mesmo tempo para ver tudo com clareza e não ser enganada por ninguém, mas o esposo a enganava o tempo todo. Ao levantar, procurava dar o primeiro passo com o pé direito para atrair boa sorte e felicidade. Fazia um desejo ao cortar a primeira fatia de seu bolo de aniversário. Colocava um caroço de melancia na testa e, antes que ele caísse, fazia um pedido.
Para tudo inventava uma solução…
E todas as manhãs a sua rotina se repetia.

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