Vitrines Da Vida

Dor que não se esconde

Parecia um rochedo de tão rude.
Podia sofrer o quanto fosse que jamais dava o braço a torcer.
Não conseguia se curar…
No corpo e na alma experimentava o efeito dessa conduta:
Não assumir seus erros.
Não ter a humildade de escutar as pessoas.
Dona da razão – assim passou a ser chamada.
Sua realidade era rígida como ela.
Vivia sozinha na sua casa triste. Lia os romances de Sidney Sheldon – pelo menos tinha bom gosto na literatura. Assistia alguns programas de TV – a cabo.
Seu mundo tornara-se extremamente singular.
No trabalho não vigorava amizades. Gerava somente rancor, nada além.
Com a família também não se abonava.
Amores – talvez nunca experimentasse esse nobre sentimento.
De beleza nula. Trajes simples e bregas. Perfumes adulterados. Não tinha uma gota de apuração em seus gostos.
Notava-se ao observá-la almoçando. Remexia a comida e misturava tudo antes de levar o talher de forma errado à boca.
“Tenho horror a pessoas que misturam a comida feito peão de obra.”
Mesmo assim cria ser a perfeição em pessoa.
“Pobre quando é pobre não muda nem se ganhar milhões na loteria.”
Marly simplesmente era assim…
Ajeitava-se do seu jeito mesmo nos laços da desilusão. Erguia as mãos para o céu e agradecia por tudo. Não conhecia a felicidade e nem a tristeza. Somente o sofrimento de não reconhecer que precisava mudar seu temperamento sem tempero… assim, talvez daria gosto ao seu viver.
De que adiantava tanta arrogância se no seu íntimo se desgastava de dor.
E a verdadeira dor não se esconde…
Ela esta lá no âmago.
O sorriso dissimulado engana somente os outros.
A presença prepotente é puramente uma armadura enferrujada.
A maquilagem miserável é sua imperfeita máscara para esconder as olheiras das noites mal dormidas.
Insiste em dizer que tudo está bem, mas na sua agenda toda semana consta a rotineira visita ao psicólogo.
Mesmo sem querer – ciente: há coisas que somente ela sabe…
Erros…
Mentiras…
Tantas verdades que sonha viver e me fazer narrá-la numa nova história.

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